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Quem nos traz as prendas? O Pai Natal ou o menino Jesus? Em pequena, nesta altura do ano, eu literalmente massacrava a minha mãe com esta pergunta. Mãe sofre...
Um ramo da minha família era ateu e o outro profundamente católico.
A minha avó paterna recusava qualquer figura que não fosse católica e, por isso, para ela era sempre o menino Jesus quem trazia as prendas.
Para os meus outros avós, era o Pai Natal.
Consequência...confusão instalada na minha cabeça. Afinal quem é me trazia mesmo as prendas?
Já não me lembro bem o que a minha mãe me respondia, mas a verdade é que qualquer que tenha sido a resposta que me tivesse dado, a mesma nunca me convenceu. Recordo-me de ficar um pouco irritada por não me explicarem bem as coisas. De facto, este assunto não era fácil. Até porque ele não se ficava por aqui!
A minha avó, do "lado ateu", ainda acrescentava que ele chegava a casa das pessoas descendo pela chaminé. Isto é que era a gota de água a fazer transbordar o meu copo cheio de dúvidas!!! Como é que tal coisa era possível? Pois se ele era gordo e os buracos das chaminés eram pequenos. Nós em casa nem tínhamos lareira e a minha mãe tinha um exaustor na chaminé da cozinha! Ah...entrava pela janela... Mas vivíamos num prédio, num 4º andar...E quem lhe abria a janela?
Estórias muito mal contadas! Estes adultos escondiam-me algo...que eu, no fundo, no fundo, não queria saber.
Nesta "guerra" entre um lado e o outro, ganhou o velhote barbudo vestido de encarnado. Se, para mim, a estória do Pai Natal me suscitava muitas dúvidas, a do menino Jesus ainda mais dúvidas me suscitava! Então se ele é bébé como é que vai distribuir prendas pelas crianças? Então, mas não foram os Reis Magos que levaram as prendas ao menino Jesus? Ele recebe ou distribui?
Um senhor com um saco grande (para colocar as prendas dentro), com um trenó e com duendes ajudantes, fazia um pouco mais de sentido para mim.
Acreditei até não me deixarem mais acreditar... que dia triste e como fiquei zangada! Creio que deve ter sido a primeira desilusão da minha vida. Cheguei, nesse dia, furiosa a casa. " Mãe, a minha professora disse que o Pai Natal não existe! Que são os pais que compram as prendas!" Não chegava o facto daquela figura maravilhosa que nos trazia as prendas não existir como, para piorar as coisas, os pais e as outras pessoas mentiam-me! Mas a professora também não tinha o direito de me contar! Deveriam ser o pais a fazê-lo! Como me recordo desse dia. Estava tão triste e zangada ao mesmo tempo.
Para mim, este é O problema. E é por esta razão que há pessoas que rejeitam qualquer figura, Pai Natal ou menino Jesus. Pura e simplesmente por acharem mal mentir-se às crianças. De facto, foi difícil para mim. Constatar que os adultos me metiam não foi fácil.
Então? E agora? Como é? O que digo aos meus filhos?
Sim, aqui em casa há Pai Natal. É ele quem traz as prendas. Mas o nosso estilo de vida, por ser diferente do da altura, obrigou-me a algumas pequenas mudanças de texto :-) Ao contrário do que acontecia comigo, a minha irmã e os meus primos, em que o Pai Natal só trazia as prendas na véspera de Natal após nós estarmos a dormir ( porque passávamos os dias de Natal sempre juntos) e, portanto, só as víamos no dia seguinte, aqui em casa o Pai Natal vai aparecendo, em várias noites, para deixar as prendas. Ele não consegue deixar as prendas todas, em todo ao lado, ao mesmo tempo...tem de o ir fazendo a pouco e pouco. É uma excitação todas as manhãs para saber se há mais alguma prenda na àrvore e para quem é!
E há, ainda, a questão de haver prendas que o Pai Natal deixa cá em casa e aquelas que são para ela (minha filha, porque ele ainda não pergunta nada) mas o Pai Natal deixou na casa das outras pessoas...Como justificar a quantidade de prendas que o restante da família traz consigo para nossa casa, para passar a noite da Consoada?
Realmente, nós mentimos muito mal e as crianças só acreditam mesmo porque querem acreditar. Haja imaginação para nos aguentarmos a tantas perguntas e a conseguirmos "passar de fininho pelos pingos da chuva"! A minha filha, no alto dos seus 6 anos, já me pressionou, dizendo "Não há Pai Natal. São vocês que compram as prendas, não são?"
E eu, enganei-a. Apesar da minha recordação bem vívida da minha desilusão, apesar de no meu caderno de valores não caber a mentira, apesar de tudo isso, insisti! É que pesando tudo - a beleza do acreditar, a maravilha da fantasia, a excitação do escrever a carta, o encantamento quando me cruzava com ele (eles) na rua, a antecipação da sua chegada...tudo isso, superou o embate sentido.
Esta é uma mentira que cabe, sim, no meu caderno e que recomendo! O Pai Natal não é fruto do consumismo. É fruto da fantasia! Do maravilhoso mundo inocente das crianças e de onde custa tanto sair.
E, por isso, pergunto. Será que os professores têm mesmo o direito de contar às crianças que o Pai Natal não existe?
PS: Está em inglês, mas podem ler
aqui a história do Pai Natal. A história começa no séc.III e ele não se veste de encarnado por causa da Coca-cola, como muitos pensam. Vale a pena ler.
Obrigada Lena! Tu sabes porquê! ;-)